Município de Santa Cruz de Salinas e o Tenente Felismino Henriques de Souza: duas histórias que se entrelaçam
Visitei o município de Santa Cruz de Salinas
nos dias 13 e 14 de junho de 2026. Durante a estadia, o clima mostrou
diferentes faces do Norte de Minas: em alguns momentos, sol forte e calor; em
outros, céu encoberto, chuva e frio.
Caminhei pelas ruas do centro da cidade,
fotografei a praça principal, a Igreja Matriz, algumas construções e vias
urbanas. Almocei no Restaurante Sagrada Família e pernoitei na garagem da
Prefeitura Municipal.
Um dos momentos mais marcantes da visita foi a
conversa com o senhor Venilton Henriques Coelho, servidor público municipal. Ao
falar sobre Santa Cruz de Salinas, ele demonstra um carinho especial pela cidade.
Segundo ele, viver em um município pequeno proporciona uma convivência
diferente: ao sair de casa, sempre encontra pessoas conhecidas, conversa com
amigos e sente que a comunidade mantém laços de proximidade que se perderam em
muitos centros maiores.
Venilton relembrou também a trajetória
política do município. O distrito de Santa Cruz de Salinas foi criado em 1911,
quando ainda pertencia ao município de Salinas. A emancipação
político-administrativa somente ocorreu em 1985, após três tentativas. Nas duas
primeiras, o movimento emancipacionista não obteve sucesso. Na terceira,
Venilton participou ativamente da campanha, ao lado dos vereadores Silvano,
Preta e Zé Moreno. A população aprovou a emancipação em consulta popular e
decidiu manter o nome histórico do distrito: Santa Cruz de Salinas.
Segundo ele, antes da emancipação o distrito
apresentava condições bastante precárias. As ruas eram de terra e cheias de
buracos; não havia calçamento; porcos, cavalos e jumentos circulavam livremente
pelas vias públicas. Na sua avaliação, era um dos distritos menos estruturados
entre os que conquistaram a emancipação naquela época.
Quatro décadas depois, Venilton considera que
a realidade mudou profundamente. Destaca principalmente os avanços na área da
saúde. Hoje, segundo ele, são realizados mutirões com diversas especialidades
médicas, o município disponibiliza transporte para buscar os pacientes e,
quando necessário, encaminha os casos de maior complexidade para cidades como
Montes Claros, Salinas e Taiobeiras.
Outro aspecto que faz questão de ressaltar é a
segurança. Para ele, Santa Cruz de Salinas continua sendo uma cidade tranquila,
onde ainda é possível viver com qualidade de vida. As lembranças da infância
são marcadas pelas brincadeiras nas ruas e pelas tradicionais festas
religiosas, que permanecem como parte importante da identidade local.
Ao recordar a história do município, Venilton
narrou um episódio pouco conhecido, mas muito significativo para a memória da
região: o combate envolvendo os chamados "revoltosos" da Coluna
Prestes.
Em 1927, durante a marcha da Coluna Prestes
pelo interior do Brasil, Santa Cruz de Salinas contava com a presença do
Tenente Felismino Henriques de Souza, integrante da Guarda Nacional e nomeado
pelo marechal Hermes da Fonseca. Segundo a tradição local, Felismino recebeu a
missão de organizar a resistência. Reuniu moradores da região e enfrentou os
combatentes que passavam pelo local. Na memória preservada pelos habitantes, os
moradores, liderados pelo Tenente Felismino, conseguiram vencer o confronto,
transformando o episódio em um dos fatos históricos mais lembrados da cidade.
Mas nem só de fatos históricos vive a memória
popular. Venilton também contou uma das mais conhecidas lendas do Vale do
Jequitinhonha: a história do "Bicho de Pedra Azul", também conhecido
como "Bicho de Fortaleza".
Embora a narrativa tenha surgido na região de
Pedra Azul, ela atravessou municípios vizinhos e também se espalhou por Santa
Cruz de Salinas. Conta a tradição que, no início do século XX, existia um rapaz
chamado Joaquim Antônio, conhecido por maltratar a própria mãe. Após
assassiná-la, teria morrido algum tempo depois. Diz a lenda que sua sepultura
começou a rachar, dela nasceram cabelos e, em seguida, surgiu uma criatura
monstruosa que passou a assustar os moradores da região.
Durante muitos anos, crianças e adultos
acreditaram na existência desse misterioso ser. À noite, ouviam barulhos,
pancadas nas paredes e sons vindos da escuridão. Venilton lembra que, quando
era menino, tinha certeza de que o "Bicho de Fortaleza" permanecia do
lado de fora de sua janela todas as noites.
Até que, já um pouco mais velho, decidiu
vencer o medo.
Abriu a janela e descobriu que o suposto
monstro era muito menos assustador do que imaginava: eram apenas os animais que
andavam soltos pelas ruas — cavalos, jumentos e porcos — produzindo os ruídos
que alimentavam a imaginação de toda uma geração.
Naquele instante, o lendário "Bicho de
Fortaleza" deixou de ser um motivo de medo e passou a fazer parte das boas
lembranças de sua infância.
Após dois dias convivendo com a população de
Santa Cruz de Salinas, segui viagem em direção ao município de Comercinho,
levando comigo a certeza de que conhecer uma cidade é, acima de tudo, conhecer
as histórias de quem vive nela.
Por Duva
Projeto: Conhecer Todas as Cidades de Minas
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