sexta-feira, 10 de julho de 2026

SANTA CRUZ DE SALINAS E O TENETE FELISMINO HENRIQUES DE SOUZA

Município de Santa Cruz de Salinas e o Tenente Felismino Henriques de Souza: duas histórias que se entrelaçam

 

Visitei o município de Santa Cruz de Salinas nos dias 13 e 14 de junho de 2026. Durante a estadia, o clima mostrou diferentes faces do Norte de Minas: em alguns momentos, sol forte e calor; em outros, céu encoberto, chuva e frio.

 

Caminhei pelas ruas do centro da cidade, fotografei a praça principal, a Igreja Matriz, algumas construções e vias urbanas. Almocei no Restaurante Sagrada Família e pernoitei na garagem da Prefeitura Municipal.

 


Um dos momentos mais marcantes da visita foi a conversa com o senhor Venilton Henriques Coelho, servidor público municipal. Ao falar sobre Santa Cruz de Salinas, ele demonstra um carinho especial pela cidade. Segundo ele, viver em um município pequeno proporciona uma convivência diferente: ao sair de casa, sempre encontra pessoas conhecidas, conversa com amigos e sente que a comunidade mantém laços de proximidade que se perderam em muitos centros maiores.

 


Venilton relembrou também a trajetória política do município. O distrito de Santa Cruz de Salinas foi criado em 1911, quando ainda pertencia ao município de Salinas. A emancipação político-administrativa somente ocorreu em 1985, após três tentativas. Nas duas primeiras, o movimento emancipacionista não obteve sucesso. Na terceira, Venilton participou ativamente da campanha, ao lado dos vereadores Silvano, Preta e Zé Moreno. A população aprovou a emancipação em consulta popular e decidiu manter o nome histórico do distrito: Santa Cruz de Salinas.

 


Segundo ele, antes da emancipação o distrito apresentava condições bastante precárias. As ruas eram de terra e cheias de buracos; não havia calçamento; porcos, cavalos e jumentos circulavam livremente pelas vias públicas. Na sua avaliação, era um dos distritos menos estruturados entre os que conquistaram a emancipação naquela época.

 


Quatro décadas depois, Venilton considera que a realidade mudou profundamente. Destaca principalmente os avanços na área da saúde. Hoje, segundo ele, são realizados mutirões com diversas especialidades médicas, o município disponibiliza transporte para buscar os pacientes e, quando necessário, encaminha os casos de maior complexidade para cidades como Montes Claros, Salinas e Taiobeiras.

 


Outro aspecto que faz questão de ressaltar é a segurança. Para ele, Santa Cruz de Salinas continua sendo uma cidade tranquila, onde ainda é possível viver com qualidade de vida. As lembranças da infância são marcadas pelas brincadeiras nas ruas e pelas tradicionais festas religiosas, que permanecem como parte importante da identidade local.

 


Ao recordar a história do município, Venilton narrou um episódio pouco conhecido, mas muito significativo para a memória da região: o combate envolvendo os chamados "revoltosos" da Coluna Prestes.

 


Em 1927, durante a marcha da Coluna Prestes pelo interior do Brasil, Santa Cruz de Salinas contava com a presença do Tenente Felismino Henriques de Souza, integrante da Guarda Nacional e nomeado pelo marechal Hermes da Fonseca. Segundo a tradição local, Felismino recebeu a missão de organizar a resistência. Reuniu moradores da região e enfrentou os combatentes que passavam pelo local. Na memória preservada pelos habitantes, os moradores, liderados pelo Tenente Felismino, conseguiram vencer o confronto, transformando o episódio em um dos fatos históricos mais lembrados da cidade.

 

Mas nem só de fatos históricos vive a memória popular. Venilton também contou uma das mais conhecidas lendas do Vale do Jequitinhonha: a história do "Bicho de Pedra Azul", também conhecido como "Bicho de Fortaleza".

 


Embora a narrativa tenha surgido na região de Pedra Azul, ela atravessou municípios vizinhos e também se espalhou por Santa Cruz de Salinas. Conta a tradição que, no início do século XX, existia um rapaz chamado Joaquim Antônio, conhecido por maltratar a própria mãe. Após assassiná-la, teria morrido algum tempo depois. Diz a lenda que sua sepultura começou a rachar, dela nasceram cabelos e, em seguida, surgiu uma criatura monstruosa que passou a assustar os moradores da região.

 

Durante muitos anos, crianças e adultos acreditaram na existência desse misterioso ser. À noite, ouviam barulhos, pancadas nas paredes e sons vindos da escuridão. Venilton lembra que, quando era menino, tinha certeza de que o "Bicho de Fortaleza" permanecia do lado de fora de sua janela todas as noites.

 

Até que, já um pouco mais velho, decidiu vencer o medo.

 

Abriu a janela e descobriu que o suposto monstro era muito menos assustador do que imaginava: eram apenas os animais que andavam soltos pelas ruas — cavalos, jumentos e porcos — produzindo os ruídos que alimentavam a imaginação de toda uma geração.

 

Naquele instante, o lendário "Bicho de Fortaleza" deixou de ser um motivo de medo e passou a fazer parte das boas lembranças de sua infância.

 

Após dois dias convivendo com a população de Santa Cruz de Salinas, segui viagem em direção ao município de Comercinho, levando comigo a certeza de que conhecer uma cidade é, acima de tudo, conhecer as histórias de quem vive nela.

 

Por Duva

Projeto: Conhecer Todas as Cidades de Minas

Nenhum comentário:

Postar um comentário

SANTA CRUZ DE SALINAS E O TENETE FELISMINO HENRIQUES DE SOUZA

Município de Santa Cruz de Salinas e o Tenente Felismino Henriques de Souza: duas histórias que se entrelaçam   Visitei o município de S...